Adolescente isolado, representando a dor silenciosa da autolesão

Descobrir que um filho está se cortando ou se machucando intencionalmente é um evento que desestabiliza toda a estrutura familiar. O primeiro instinto dos pais é o desespero, seguido muitas vezes por perguntas carregadas de culpa: "Onde eu errei?" ou "Por que ele está fazendo isso comigo?".

Na prática clínica, acompanhando adolescentes e orientando pais ao longo dos anos, percebo que o maior obstáculo para ajudar um jovem em sofrimento é a desinformação. O comportamento que popularmente chamamos de automutilação é cercado de estigmas, tabus e julgamentos morais que apenas agravam o isolamento de quem sofre.

O que é automutilação (Autolesão Não Suicida)?

O termo técnico utilizado pelos manuais de saúde (como o DSM-5) não é automutilação, mas sim Autolesão Não Suicida (ALNS). Essa diferença de nomenclatura é crucial.

A autolesão consiste em provocar danos intencionais ao próprio tecido corporal (cortes, queimaduras, arranhões profundos ou socos em paredes) sem a intenção de cometer suicídio. É aqui que muitos pais se confundem. O adolescente que se corta não está, na grande maioria das vezes, querendo acabar com a vida. Ele encontrou na dor física um mecanismo disfuncional para sobreviver a uma dor emocional que ele não sabe nomear ou suportar.

A neurobiologia do corte: Por que a dor alivia?

Dados da Sociedade Internacional para o Estudo da Autolesão apontam que cerca de 17% a 20% dos adolescentes já se engajaram em algum tipo de autolesão. Mas por que fazer isso?

Quando o corpo sofre um dano físico, o cérebro libera endorfinas — analgésicos naturais que geram uma sensação momentânea de alívio e dormência. Para um jovem que está sobrecarregado por angústia, ansiedade extrema ou vazio, esse dano físico traz uma sensação rápida de "regulação emocional". O problema é que esse alívio dura minutos, e é rapidamente substituído por vergonha e culpa, criando um ciclo vicioso.

Os códigos da internet: O que significa "SH"?

Se você monitora as redes sociais do seu filho (como TikTok ou Twitter), é fundamental conhecer os códigos usados por eles. Para evitar que os algoritmos bloqueiem suas postagens, os adolescentes raramente escrevem a palavra "automutilação".

Eles utilizam a sigla "SH" (do inglês Self-Harm, que significa autolesão), ou expressões como "códigos de barra" para se referirem às cicatrizes. Compreender esse vocabulário ajuda a identificar se o jovem está inserido em comunidades online que romantizam esse comportamento.

O isolamento só agrava o sofrimento. Se você notou mudanças no comportamento do seu filho, a intervenção profissional precoce é o caminho mais seguro.

Conversar com o psicólogo

O peso da culpa: Automutilação é pecado?

Uma das perguntas mais frequentes (e dolorosas) buscadas no Google revela uma angústia profunda, seja do jovem ou de famílias religiosas: "A automutilação é um pecado?"

O sofrimento psíquico não deve ser lido sob a lente da condenação moral. Quando tratamos a autolesão como um "pecado" ou um "desvio de caráter", empurramos o adolescente para um esconderijo ainda mais escuro. Ele não está cometendo um crime contra si mesmo por maldade; ele está doente e não tem as ferramentas simbólicas para organizar a própria angústia. O olhar clínico da psicanálise oferece exatamente isso: a suspensão do julgamento para que a dor possa, finalmente, ganhar palavras em vez de cortes.

Qual é o CID da automutilação?

Na Classificação Internacional de Doenças, a autolesão não é categorizada como um transtorno isolado, mas geralmente está associada a outros quadros de saúde mental. Historicamente, os códigos utilizados envolvem categorias como lesões autoprovocadas intencionalmente (no CID-10, abrangidas nos códigos X60 a X84). Já no manual psiquiátrico DSM-5, ela foi proposta como uma condição de estudo clínico autônoma (Autolesão Não Suicida).

O tratamento: Substituindo o ato pela palavra

Proibir um adolescente de se cortar ou vasculhar seu quarto atrás de objetos cortantes, embora seja um instinto de proteção, costuma gerar mais ansiedade. É como tapar a panela de pressão sem desligar o fogo.

O tratamento eficaz exige uma estrutura dupla:

  1. Para o adolescente: Um espaço clínico, ético e presencial. No consultório (ofereço este atendimento em Tangará da Serra), trabalhamos para construir recursos emocionais. O objetivo é fazer com que a angústia possa ser falada, e não mais atuada no corpo.
  2. Para os pais: Sessões de orientação. Pais precisam ser instrumentados para exercerem a autoridade sem perderem a empatia. Vocês aprenderão a validar a dor do filho sem validar o comportamento destrutivo.

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Perguntas frequentes

Clinicamente chamada de autolesão não suicida, significa causar dano físico intencional ao próprio corpo (como cortes ou queimaduras) sem o objetivo de cometer suicídio. É um mecanismo disfuncional usado para tentar aliviar uma dor ou tensão emocional insuportável.

Não. Esse é o mito mais perigoso sobre a autolesão. Na maioria das vezes, o adolescente esconde as marcas por meses. Mesmo quando a ação atrai os olhares da família, ela é, na verdade, um pedido desesperado de ajuda de alguém que não sabe se comunicar de outra forma.

A autolesão é uma tentativa de tolerar a vida e lidar com emoções extremas através da dor física. A tentativa de suicídio é o desejo de encerrar a vida. No entanto, é vital procurar ajuda terapêutica imediata, pois a autolesão crônica aumenta as estatísticas de risco no longo prazo.

SH é a sigla para "Self-Harm" (Autolesão, em inglês). É um código amplamente utilizado por adolescentes no TikTok, Twitter e fóruns online para falar sobre automutilação sem que as plataformas derrubem ou censurem seus posts.