Você encontrou marcas no braço do seu filho. Ou ele te contou. Ou alguém da escola ligou. De qualquer forma, você está aqui — assustado, sem saber o que fazer, provavelmente com o coração na mão.
Antes de qualquer coisa: o fato de você estar pesquisando já significa que está querendo ajudar. Isso importa mais do que você imagina.
O que a autolesão não é
O primeiro passo é entender o que está acontecendo — e desfazer alguns mitos que podem atrapalhar sua resposta.
Autolesão não é tentativa de suicídio. Na maioria dos casos, a pessoa que se machuca não quer morrer. Ela quer sobreviver a uma dor que parece insuportável — e encontrou naquele comportamento uma forma de fazer isso. Isso não quer dizer que seja seguro ou que deva ser ignorado. Mas entender essa diferença muda completamente como você vai responder.
Autolesão não é "por atenção". Quando alguém usa essa frase, o que quer dizer — mesmo sem perceber — é que a dor do adolescente não é real. É. E diminuir o sofrimento que está por trás do comportamento é um dos maiores erros que um pai pode cometer nesse momento.
Autolesão não é "fase". Pode parecer passageira. Pode ter surgido do nada. Mas comportamentos de autolesão recorrentes sinalizam que a pessoa está usando esse mecanismo para regular emoções que ainda não aprendeu a lidar de outra forma. Sem intervenção, tende a se intensificar.
Seu filho precisa de escuta profissional. Quanto antes, melhor.
Falar com o psicólogoO que não fazer — e por quê
Sei que parece contraditório começar pelo que não fazer. Mas na prática clínica, a reação inicial dos pais pode abrir ou fechar completamente a possibilidade de o adolescente aceitar ajuda.
Não entre em pânico na frente dele. O desespero visível dos pais costuma fazer com que o adolescente se feche ainda mais — ele começa a proteger você em vez de se proteger. Isso não significa fingir que está tudo bem. Significa encontrar uma forma de transmitir preocupação sem colapsar.
Não proíba nem ameace. "Se você fizer isso de novo, eu vou te internar" ou "você vai parar com isso agora" são frases que aumentam a sensação de abandono e de não ser compreendido. Proibir o comportamento sem cuidar do sofrimento por trás dele é como desligar o alarme sem apagar o incêndio.
Não minimize. "Tem muita gente em situação pior", "você tem uma vida boa, por que faz isso?" — essas frases comunicam ao adolescente que o sofrimento dele não é real o suficiente para merecer atenção. É exatamente o oposto do que ele precisa ouvir.
Não vasculhe e não exponha. Revistar o quarto, mostrar as marcas para outros familiares, postar sobre o assunto — tudo isso viola a confiança que é a base de qualquer possibilidade de ajuda.
O que fazer — passo a passo
Agora sim. Com calma, sem pressa, e com a consciência de que isso não vai se resolver em uma conversa:
1. Respire antes de abordar. Se você acabou de descobrir, dê-se alguns minutos antes de conversar com seu filho. Uma conversa feita no calor da emoção raramente vai bem.
2. Escolha um momento tranquilo. Não logo depois de uma briga. Não na hora do jantar com a família toda. Um momento em que vocês dois estejam sozinhos e sem pressa.
3. Comece com curiosidade, não com acusação. "Eu vi algumas marcas e fiquei preocupado. Posso te perguntar o que está acontecendo?" é muito diferente de "O que é isso no seu braço?"
4. Ouça mais do que fale. O objetivo dessa conversa não é resolver — é abrir uma porta. Deixe seu filho falar. Resista ao impulso de dar soluções imediatamente.
5. Valide o sofrimento, não o comportamento. "Você deve estar sentindo muita coisa para chegar a isso" valida a dor sem normalizar a autolesão. É uma diferença sutil e muito importante.
6. Busque ajuda profissional. Essa é a parte mais importante. Você não precisa — e não deve — tentar resolver isso sozinho. Um psicólogo especializado em adolescentes vai fazer o que nenhum pai consegue fazer: oferecer um espaço neutro, sigiloso e sem julgamento onde o adolescente pode falar o que não consegue dizer em casa.
"O adolescente que se machuca não quer se destruir. Ele quer ser ouvido de um jeito que ainda não encontrou."
E se ele se recusar a ir ao psicólogo?
É uma situação extremamente comum. O adolescente resiste porque ir ao psicólogo significa admitir que algo está errado — e isso dói.
Nesse caso, uma estratégia que funciona com frequência é começar pelo atendimento dos pais. Marque uma sessão de orientação parental para você. Além de te dar ferramentas para lidar com a situação, muitas vezes — quando o adolescente vê que os pais estão indo ao psicólogo sem transformar tudo em interrogatório — ele se torna mais aberto a ir também.
Se a recusa for muito firme e o risco parecer alto (comportamento frequente, marcas profundas, falas sobre não querer mais estar aqui), não espere. Leve ao pronto-socorro ou acione o CVV (188) para orientação imediata.
Perguntas frequentes
Não de forma automática, mas existe uma relação clínica importante: pessoas que praticam autolesão têm estatisticamente maior risco de tentativa de suicídio ao longo da vida — especialmente se o sofrimento subjacente não for tratado. Isso não significa que seu filho vai chegar a esse ponto, mas reforça a importância de buscar ajuda especializada sem minimizar o comportamento atual.
Depende do nível de risco e do contexto. Em alguns casos, comunicar à equipe pedagógica pode criar uma rede de apoio importante. Em outros, pode aumentar a exposição do adolescente e gerar mais isolamento. Uma boa orientação é discutir isso com o psicólogo que acompanha seu filho — ele pode ajudar a tomar essa decisão de forma estratégica e ética.
Não existe um prazo padrão. O que a pesquisa mostra é que adolescentes que recebem psicoterapia especializada têm redução significativa do comportamento em alguns meses de acompanhamento consistente. Mas o processo terapêutico não é só sobre parar de se machucar — é sobre construir novas formas de lidar com o sofrimento, o que leva o tempo que cada pessoa precisa.
Pergunte diretamente. Um psicólogo especializado vai conseguir te explicar com clareza como trabalha com esses casos, o que avalia na primeira sessão e como pensa o manejo de risco. Desconfie de respostas genéricas. O CRP (Conselho Regional de Psicologia) também é um bom ponto de verificação para confirmar se o profissional está regularmente registrado.